quinta-feira, 24 de março de 2011

O começo é um fim...

Amor. Sempre quis dizer isso a alguém, ou melhor, sempre quis presentear uma pessoa que há tempos me acompanha nesse ritmo frenético e esquizofrênico da minha vida. Por vários motivos sempre resguardei esse precoce sentimento, mas fiz questão de escrever maviosas poesias nas pétalas das magnólias imêmores. Delineava nossos raros encontros casuais ao crepúsculo, para que ao anoitecer eu pudesse te ter em meus braços, e no decorrer da deleitosa madrugada eu pudesse escrever nosso futuro de filhos e rosas num papel sombreado de esperança.
Quando a vi pela primeira vez, emaranhada na multidão de calouros de um curso ideológico, percebi que minha razão de viver estaria conjecturada nas suas dúbias escolhas e desejos proibidos. Fiz das minhas breves noites, um acalento no luar, e das minhas poesias um desabafo platônico, já que nesse mundo real eu não poderia de ter em meus lençóis desbotados. Paguei o preço necessário para viver contigo em meus devaneios, pois seu destino infelizmente já estava escrito pelas mãos de outro homem.
Eu não sabia o porquê estava ali, mas é extasiante poder estar ao seu lado e ver de tão perto sua afetuosa pele, seu sorriso tímido, e seus lábios vistosos. Sempre estive ao seu lado, mas agora, está tudo diferente, sinto seus olhos compenetrados e pestanejados aos meus. Sinto seu sorriso tocar no límpido céu de espuma, e que paira em direção aos meus abraços, que estarão sempre prontos para te receber.
Só tu soubeste me dar à divina delícia. Os lírios campestres amontoados harmoniosamente num arranjo em seus afetuosos cabelos de princesa, faz-me empalidecer meu semblante sisudo, esmorecer meu vistoso sorriso juvenil, e entregar-me em beijos irreais na turva lua cheia. A chuva passou por aqui, pestanejando a fragilidade dos meus pensamentos, e com a brisa foi-se embora as imagens ludibriadas no meu eterno sonho.
Continua...

Pablo Silva

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Juras de Amor

Num certo dia estava caminhando abandonado nas ruas despidas dessa cidade esquecida. Minha vida naquele momento estava conturbada e embaraçada. Mas, minha mudança de humor ainda estava por vim. Quando adentrei no meu refugio, recebi uma ligação que iria mudar totalmente minha vida. Descobri que tudo o que eu tinha vivido, todo o aprendizado, todas as regras de cidadania e matrimonio, iriam cair por terra. O único e verdadeiro amor que eu acompanhei, seria traído pelo mau humor do destino. O amor dos meus pais se desfez pelo efeito de um relâmpago, que destruiu as flores que há anos foram delicadamente regadas. Esse sublime jardim foi minuciosamente cuidado pelo amor de dois casais, que aprenderam a afastar todas as ervas daninhas, todas as pragas, e principalmente todos os pardais que insistiam em destruir as pétalas das magnólias. 
Jamais irei esquecer aquele 25 de agosto de um ano perdido. Quando recebi essa sentença, pude acompanhar o desespero e o despreparo de um homem que guardava em seu peito o amor além da vida. Das várias lições que o meu pai me ensinou, lembro de uma em especial. Ele costumava dizer “Meu filho, quando você avistar uma mulher e sentir um frio na barriga, um formigamento nas pernas, será a certeza que você encontrou a mulher certa pra sua vida. E quando achares guarde esse amor eterno em seu peito, e faça dela a mulher mais feliz da face da terra, pois o amor perdura além da vida”. Tudo o que eu tinha aprendido foi abandonado naquele dia.
Ouvi gritos de um homem apaixonado, e de uma mulher que sofria a inconstância de seus pensamentos, e a crueldade da depressão. Ouvi soluços de um homem que nunca havia derramado uma lágrima sequer, e que sempre demonstrou firmeza em sua voz. Mas naquele dia seu grito estava abafado em seu peito arrasado. Não pude segurar o peso do meu corpo, e caí de joelhos num azulejo frio e indelicado. As lágrimas rolavam semblante afora. O desespero tomou conta do meu ser, e a única coisa que consegui fazer foi caminhar até o primeiro boteco que avistei. Comprei meia dúzia de cigarros, e caminhei até uma praça para poder me afogar num copo de cólera. Fiquei desnorteado quando o chão se abriu, e me engoliu para um abismo sem fim.
Na esperança de ser consolado pelo meu amor juvenil, fui tratado com frieza e desgosto. Percebi que não podia me desabafar com a guria que eu mais confiava nessa minha singela vida. Fui taxado como fraco e ateu por sofrer a separação das pessoas que eu mais amava nesse mundo medíocre. Quando mais precisei, fui esquecido e abandonado. A imagem e semelhança do meu pai tinha me tornado um homem sisudo. Sempre fui forte e preparado para resolver qualquer problema, até mesmo àqueles que não me pertenciam. Fui conhecido no meio da multidão por ouvir pessoas de todas as classes, de todos os estilos, e por sempre trazer a tona sentimentos oculto, sentimentos antes não sentidos ou nunca desejados. Talvez de maneira mágica eu conseguisse sentir a angústia, e dessa forma ajudava a sanar essa ferida.
Naquele dia senti minhas mãos atadas, e minha voz abafada de espanto. Subia no meu peito um ardor febril que me levava ao transtorno excêntrico. Milhares de pensamentos congestionavam meu cérebro, me impossibilitando de agir, ou de conter as lágrimas de uma família que era arrasada pela força de uma tempestade. A única coisa que me fazia acalmar era a inalação da nicotina, que paralisava a força dos meus pensamentos e abria as portas do meu diário esquecido. Foi assim que consegui sair do delírio instantâneo, e parti desse mundo para nunca mais voltar. Engano meu. No dia seguinte todos os problemas passavam no plantão do meio-dia, e percebi que não adiantava fugir deles, pois em todos os lugares que eu visitava lá estavam eles, todos enfileirados prontos para massacrar meu coração cardíaco.  
Continua...

Pablo Silva

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Martírio

Na calada da madruga fria,
Seu semblante vem visitar-me
Junto com os vultos da solidão,
No eloqüente delírio febril.

O êxtase longínquo
Esvai pelas brechas
Da janela do pôr-do-sol.
E a demasiada noite
Pronuncia meu dilacerado nome,
Para juntos, pernoitarmos nas estrelas
Do compassivo vento.

Pestanejo nas entranhas
Dos teus vistosos lábios de mel.
E na ventura do amor exilado,
Lanço-me nas magnólias desbotadas,
Para esquecer seu ausente abraço.

Daí então,
Saberás que sem ti
Morrerei sorrindo.

Pablo Silva

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Pestanejar

Aqui, nessa praia deserta,
Fico te observando à distância.
Com o súbito grito abafado,
E o silêncio perdurado no fajuto tempo.

A afetuosidade de seus vistosos cabelos
Flutuam no lastimoso vento,
E seu perfume mistura-se com a brisa,
Fazendo com que minhas estrelas
Pairam sobre o mar de ilusões.

As pétalas dos lírios
São levadas para o turvo
Luar eqüidistante,
E o cheiro do seu corpo
Impregna nos meus lábios,
Levando-me a insônia
De um poeta compulsivo.

Sentado nesse dúbio deserto vermelho
Fico a espreitar seu sorriso de perto,
Sentir seu olhar me despir de inverdades,
Acelerando o meu fraco coração,
Após debruçar-me em suas cálidas mãos
Que acaricia os pêlos do meu rosto senil,
Levando-a ao arrepio
Ocasionado por um punhado de espinhos
Que estão prontos para defender seu fiel dono.

Recua-se passos para trás,
E em breves minutos
Tornam-se uma acelerada corrida
Sobre a rua desnudada e solitária.

Assim, você segue fugindo
Com a cabeça sempre erguida.
Sem almejar um olhar para trás
Distancia do meu moroso abraço,
E das minhas gentis poesias.

Pablo Silva

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Afago

A palavra destrói o amor,
E o minuto que antecede o beijo,
Coloca nossos lábios num abismo
Sem fim...

Nossos lábios tornam-se esbranquiçados
Pelo efeito da secura do beijo
Que não aconteceu.

A chuva molha nossos semblantes
Misturando-se às lágrimas da saudade,
E da mágoa que nos persegue
Pelo martírio moroso.

A vigorosa lua é o nosso horizonte,
E o crepúsculo é o nosso amor
Que não pode acontecer
Pela audácia de um espinho
Que insiste em nos ferir.

Pablo Silva

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Entre faces da opinião pública, do jornalismo e a política

O jornalismo nasce no bojo da opinião pública com o propósito de “lutar” para que prevaleçam as questões sociais, e os direitos civis, mediante a nomeação de portadores da opinião pública. Mas, essa fatídica nomenclatura não passa de um equivoco. Nós, jornalistas diplomados, somos trabalhadores da opinião pública, e não temos a sutileza, muita das vezes, ao nos autodenominarmos como “portadores de tal investidura”. Pura arrogância de pseudo-intelectuais.
O universo da opinião pública, nada mais é que a representação do compromisso com a verdade, com a razão, com a liberdade, e como principio que rege o poder público. Todavia, não é isso que deparamos no seio dos parlamentares. Os representantes da opinião (vontade) pública são os primeiros a negarem essa função, e fazem de suas ínfimas idéias, uma incontestável vontade geral.
Essa ostensiva marca política, norteia o desproposito, e o descrédito que é a política pós-contemporânea. Ao se tratar de assuntos mobilizadores, a política não se apresenta como vontade geral, mas predomina os interesses particulares que regem toda a economia ilegítima para a sociedade. Os indivíduos (sociedade) são colocados em terceiro plano, e suas necessidades, expectativas e anseios, em última análise, portanto, a esfera pública fica refém da supremacia dos interesses privados. Particularmente, a concentração midiática nas mãos de famílias conservadoras propõe uma alienação de conteúdos midiáticos, tornando-se uma indústria da informação. Percebe-se que as elites econômicas e políticas exercem influência majoritária sobre os meios de comunicação. Nesse cenário, a mídia exerce influência direta sobre os processos eleitorais, determinando o destino das eleições, mediante os critérios de omissão e manipulação dos fatos.
A política, quase nunca estável e inequívoca, caminha em estradas errôneas, juntamente com a ambígua opinião pública, evidenciada pelos estatutos de emanação da sociedade civil e autônoma face ao Estado, e o estatuto de verdadeiro órgão político, que corresponde uma orientação para a opinião pública. Neste contexto, “a opinião pública, enquanto força racional, capaz de exercer uma pressão sobre os indivíduos, exige, para se caracterizar como instância julgadora, um processo de esclarecimento, um processo de formação do público, precisa tomar o lugar d preconceito, que nada mais é do que a perpetuação do erro como verdade” (Meira do Nascimento, pag. 40).
No jornalismo, através da massificação social, os veículos de comunicação tornaram-se poderosa arma, capaz de criar meticulosos mecanismos influenciadores. Com isso, a mídia inseriu-se no patamar de formadores de opinião, pautando a sociedade para discutir temas “relevantes”, com propósito de chegar a uma opinião universal. No entanto, a abstenção da grade televisiva, ou seja, à transmissão contínua, integral, permanente, da programação das emissoras provoca uma segmentação de pensamentos, levando a sociedade terem somente leituras sensoriais e emocionais do quotidiano.
Hallin afirma que “por mais poderosos que os mídias se tenham tornados, eles têm de manter alguma reminiscência de diálogo com o público, o que significa que, apesar de tudo, existe sempre algum grau de abertura, uma dupla dimensão no processo de comunicação – quando surge o desafio de aos limites do discurso político [normalizado] por parte de público activo, os media não pode ignorá-lo, sob pena de porem em perigo a sua própria legitimidade” (Hallin, 1995, p. 143).

Conseqüentemente, os porta-vozes oficiais têm um papel fundamental para a sociedade, o de coibir o raciocínio da ordem social, e de alavancar suas próprias crenças e raciocínio. O problema que se cria com essa mazela midiática, é que esses líderes estão veiculando informações manipuladas em prol de seus próprios interesses, e que não são coletivos. Assim sendo, hoje em dia, temos grandes e difíceis obstáculos para contornarmos esse processo maléfico, pois se a opinião pública estiver sempre a mercê de interesses provindos das elites políticas e econômicas, a democracia como garantidora de soberania popular perde seu lugar para um governo medíocre e autoritarista.
Como dizia Monique Augraus “a opinião pública é, declaradamente, uma alavanca na mão do demagogo. Daí em diante aparecerá um duplo aspecto: expressão genuína da vontade do povo e meio de manipulação desse povo”.

Pablo Silva

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Biografia de um poeta de araque

Meu ferrenho dia começa as quatro da alvorada. Levanto nocauteado pelo sono, e com os olhos grudados pela sensibilidade da frenética luz contemporânea. Após lavar o rosto, começo higienizar meus dentes amarelados pelo gosto presente do cigarro. Em diante, lanço aos passos nas ruas desabitadas, com a presença da vigorosa lua, e de alguns bêbados pela estrada. Caminho entre jardins pomposos, e pela desvairada noite que me acalenta durante breves minutos.
Alto ali do sétimo andar, via uma luz desperdiçada de manhã. Uma ninfeta andava apenas de calçinha pelos corredores escuros de um apartamento esquecido. Interrompi meu compassivo trajeto, e procurei os olhos daquela guria no meio da tenebrosa madrugada fria. Nada achei. Daí então, continuei minha andança por dúbios caminhos, imaginando novos cenários pela frente. Deparei-me com pétalas que pairavam pelo céu, e apontava um nascer do sol deslumbrante. As ruas despidas começam a ficar pequenas, e mais um dia surge ao acaso, e minha rotina estava a me esperar por mais um dia de trabalho.
Logo intuo uma demasiada ânsia ao ver a ruiva dos meus devaneios. Ela vem descendo o jardim das magnólias, pestanejando seus vistosos cabelos, cobrindo parte de seu pálido semblante juvenil. As palavras sussurravam em meus ouvidos, querendo por tudo ser marcada num papel sombreado de medo e angústia. Não me rendi, pois aquele sentimento esquizofrênico não merecia ser lembrando em meu diário esquecido. As mãos trêmulas mal conseguiam escrever as solicitações de alguns clientes. A voz ecoa com o timbre de insegurança, e com a audácia de um operador de telemarketing, que era amparado pelo aconchego dos muros que cerceavam seu corpo.
Os braços, naquele dia foram desamparados. Os olhares ficaram no vácuo. Os lábios permaneceram esbranquiçados pela secura do beijo que não aconteceu. Minhas rosas murcharam, e as poesias retiraram seu encanto do pergaminho. A única coisa perceptível naquele instante era meu semblante moribundo, que entregava minha decepção platônica. Ansiava por um cigarro, acompanhado de uma xícara de café açucarado. Só assim desvelaria a missiva do meu subconsciente. No entanto, optei por seguir minha maldita intuição, que me levaria mais uma vez ao transtorno.
Continuei minha manhã cerceada por dúvidas, e por lembranças que não tinham acontecido em minha vida real. Decidi então adentrar no meu mundo ilusório, pois somente assim, teria as palavras em minhas mãos para serem escritas da maneira apropriada. O sabor do êxtase percorria em minhas turvas veias, contendo meus anseios e desvendando os próximos passos daquela vida solitária.
“Só há uma chance para viver”. Era o que eu sempre ouvia das pessoas comuns. Por isso não quis desperdiçar meu quotidiano por amores banais. Conseqüentemente, o medo se esvai por não saber viver, e por residir emaranhado na dor sem hesitar. Olho para céu e vejo um vazio no meu estômago. A gastrite almeja cigarros e cafeína. Mas a única coisa que me preencheu, foi à poesia azucrinante e audaciosa. Passei uma manhã de tormentos. Não queria me render, mas acabei me entregando a aquelas palavras inusitada, sobre o nascer de um sol impiedoso, e perspicaz.
Quando acordei daquele delírio febril, percebi que era tarde demais, pois minha suposta amada já tinha embarcado no ônibus da saudade. Sendo assim, decidi antecipar minha carga horária, e segui desbravando a Rua 90. Meu objetivo naquele momento era de estacionar-me em uma praça mais próxima possível. Ancorei-me então na Praça do Cruzeiro, e comecei a retirar um cigarro do meu velho maço. Acionei a combustão do meu fiel isqueiro, e comecei a fumar todos aqueles acontecimentos surreais.
Os dias correm e somem, e com toda certeza não vão voltar. Por isso, sempre acreditei que um dia saberia a verdade da minha vida. Sei que minha vida foi escrita em algum livro desconhecido, e que um dia teria todas as perguntas para minhas dúbias respostas.
Nesse momento estou sentado no meio-fio de uma rua solitária, acompanhado pela ilustríssima presença de um velho barreiro, e de um punhado de cigarros amassados pelo bolso do jeans. Lembrei-me esporadicamente do meu primeiro amor de primavera. Era um amor inocente, e uma paixão passageira de festa junina. O sentimento misturava-se com a insegurança e com o gosto amargo do desprezo. Mas para todos os efeitos, me decompunha em cartas românticas do século XVIII. Fui incompreendido por certas pessoas, e admirado por tantas outras. Desde cedo tive a companhia inseparável das palavras. Era meu alento, e a minha perdição.
Sempre desejei veementemente ter nascido em séculos passados. Neste século da aparência, em qual vivemos, as pessoas tornaram-se insensatas, medíocres e obscenas. Queria mesmo era sentir o gosto do linguajar senil, e residir emaranhado nos espinhos de uma rosa ingrata e fugaz. No entanto, venho gradativamente me habituando ao meu mundo ilusório. Um mundo que perpassa descendências. E que é acostumado à serena solidão de um poeta de araque.
Para os não me conhecem, sou jornalista por profissão, e escritor por paixão. Nasci através de uma experiência do acaso, e desde então, professo pelos caminhos tortos de uma vida bucólica. O destino, um senhor de bengala, ordenou aos meus pais que eu deveria chamar “Pablo”. Esse esporádico nome surgiu através das escrituras de um livro sujo e desconhecido. Quando criança, tinha sempre em meu bolso um sonho para contar. Estava à frente do tempo e do vento. Sempre estive desacompanhado. Meus pais saiam antes da alvorada, e quando voltavam me encontrava apegado ao sono, acompanhado por meu leal travesseiro.
Nunca descobri a importância de viver. Mas sempre soube que esse mundo se decompunha aos olhos da ambição, e do consumismo exacerbado. Senti de perto os desníveis sociais, a pobreza e a ausência de uma educação digna. Com isso, me aliei à luta do comunismo, para criação de um mundo melhor, e para que todos nós possamos ter a decência de uma vida de operário. A angústia sempre teve vez em minha melancólica vida. Sempre estive atrelado ao inconformismo, e ao sentimentalismo que permeia na trilha do meu destino. Se hoje falo de amor, é por que há tempos vivo na complexidade do medo e da amargura.
Quando me despertei daquele profundo pensamento longínquo, o relógio mudo apontava os deslumbramentos às uma e quarenta da madrugada. Levantei daquele meio-fio ingrato e desconfortável, sacudi a poeira do meu surrado jeans, e segui o caminho do lastimoso vento. As luzes das vitrines deletérias mostravam que meus passos estavam na avenida central. E as nuvens que pairavam no céu furibundo, teimavam em derramar sua chuva sobre os passos de um poeta esquecido e sisudo, para esconder as lágrimas que manchavam seu rosto padecido. A idade já não fazia parte do meu corpo, circunstancialmente envelhecia somente a alma e os pensamentos pecaminosos. Vou levando assim, entre a velhice e a juventude, mais perto da fragilizada velhice.
Meu espírito revolve todos os meus cuidados e recorda meus terríveis medos de inverno. Vivo assim, entre cravos e espinhos. Entre o silêncio e as palavras ancoradas num papel amarelado pelo tempo penitenciado. No entanto, de forma catastrófica sigo desvelando minhas ínfimas poesias, ludibriando a estupidez do meu destino infeliz, para não voltar aos devaneios decorrentes do ano de 2006. Pois foi quando descobri o amor e a perdição de viver emaranhado nos vistosos lábios de algodão. Foi quando descobri a loucura da paixão, e a dor da ilusão. Fiquei estarrecido e apócrifo. A única coisa viável a se fazer naquele momento era me render ao inconformismo, e travar guerras dentro do meu dilacerado coração. Tinha que me recompor, e transformar aquela situação em uma infindável lira poética.
Os anos decorrentes passaram como um piscar de pálpebras. Amores platônicos surgiram em meu jardim, como pétalas lançadas aos ventos em prerrogativa da felicidade que não chegava à minha janela. Nunca imaginei que minhas turvas rosas iriam murchar, mas quando a realidade chega, ela não pede licença para entrar, simplesmente invade nosso corpo, e leva-nos para a tristeza morosa. Foi assim que eu não sobrevivi ao temporal.
Enquanto o frio assume meu corpo, eu não aprendi a tradução da saudade. Não aprendi a me render sem sequer tentar lutar. Pois quando criança meu pai sempre cochichava em meus ouvidos, dizendo que “nunca se vence uma guerra lutando sozinho”. Que caia o inimigo então. Ou melhor, que o amor exilado em meu peito seja esquartejado pela vontade de viver solitário. Já não suporto a inconstância desse nevoeiro, isso me provoca náuseas, e não posso ficar nessa situação por mais tempo, pois nosso plano era de ficarmos bem.
Quando o sol ainda não havia cessado o seu brilho, quando a noite engolia aos poucos o avermelhado do crepúsculo, você veio se sentar ao meu lado feito um mavioso sabiá receado. Esmiuçou meu semblante senil com a delicadeza de suas mãos. Inquiriu meus vistosos lábios com a voracidade de um desejo sem fim. Mas , quando absorveu minha ultima gota de seiva, jogou-me na madruga feito uma rosa murcha sem serventia para os seus dias subseqüentes.
Nívea, era o nome da minha primeira rosa azul-turquesa. Eram os vistosos lábios de uma guria diáfana, que sempre usava do maledicente para se esconder atrás do voraz mundo contemporâneo. Esse nome era a designação dos raios infindos do crepúsculo, era a primeira estrela do dia, e a vigorosa lua do martírio.
Fecho os olhos na esperança de te ver. Transporto-me para sua estrada para caminhar ao seu lado, mas sua fragilidade não deixa você me sentir tão perto. Elevo meus pensamentos até aos seus sonhos, no entanto, seu orgulho fútil faz com que eu vá embora para o recanto das magnólias esquecidas. Escuto um timbre rouquenho pronunciando a palavra “Anjo”, era assim que ela me chamada.

Continua...

Pablo Silva