terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Anjos nas Ruas

Sinto no meu debilitado
Peito a dor do desprezo.
Sinto os olhares impiedosos
Julgando os maltrapilhos.

A rua despida sem paz na solidão,
É o norte equidistante dos mendigos.
Carentes de devaneios,
Vagam pelo tempo que não passou,
Faz da hora uma cadeia de promessas
Que não se pode cumprir.

O crepúsculo é o panorama
Enfadonho de sua perambulação,
Perpetrando seus pés,
Carne viva latejante.

Semblantes melancólicos...
Imémores nas sarjetas do acaso,
Suplicando um pedaço de hóstia deteriorada.

O caos do pensamento,
Leva-os a caminhar enclausurado
Na vertiginosa chuva conspurcada,
Trazendo o pálido frio perspicaz,
E fraudando a fome
Com o silêncio no tempo perduro.


Pablo Silva

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Insanidade

Há tempos me perdi!
Não consigo encontrar-me
Na chuva deliquente que caí lá fora,
Nem no improvável
Mar ostentoso que corrobora.

Vôo entre pétalas de um velho lírio
Conjuturado de páginas
De meu livro não lido.

Submerso nas minhas
Lágrimas conspurcadas,
Permaneço na sarjeta do crepúsculo,
Esperando o brilho eterno
De um alvedrio duradouro.

Nas entranhas
Da minha imémore alma,
Deturpo a soberania popular
Acorrentada pelos deslumbrados.

Espelhos e imagens
São a contradição
De uma realidade desfigurada,
Aluindo a cobiça
E a agiotagem de pseudocapitalistas.

Perdido nos pensamentos levianos,
Desvelo a agnosia
Dos elitistas blasfemadores,
Que almeja somente os desníveis sociais.

Deixe-me fingir
Na hora rir,
Das benevolências irreais
Dos seres humanos
Desleais.

Pablo Silva

Devaneio Arraigado

Quando a vejo
Veraneio na ventura
Para buscar na dor o amor.

Quando a tenho,
Meus vistosos lábios
Prevêem agradáveis
Poesias utópicas.

Em devaneios,
Deliro na petulância
De um sentimento de outono.

É bela como a lua fulgurante,
Que entre brisas e pétalas
Voam também as patativas
Anunciando o cortejo do anjo d’álvorada.

A morte já não é o
Caminho para o sublime.
Pois quando a tenho
Em meus braços,
Morrerei sorrindo
No jardim desvairado.

Pablo Silva

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Dúbia Aflição

O esdrúxulo vertiginoso contamina
Meu límpido céu de nojo.
Os ruídos de cordas elétricas
Ecoam pelos corredores escuros,
Abafando o grito rouquenho de silêncio perduro.

A melancolia esbravejada caminha
Lado a lado com o tédio e o medo.
As dúvidas em dimensões
Causam os sobressaltos
Que perjuram as ruas despidas.

O céu cinzento abarca os semblantes
Trajados pela constância de calúnias,
E encenações num palco sem platéia.

Ao criticar-me destemidamente
Tornarei um espírito vagante
A procura da etnia simplória,
Para fazer dela minha morada infinda.

Quem mo dera poder peregrinar
Por entre as magnólias imémores,
Madrugar nos martírios voluptuosos,
Poder afugentar-me
Na fantasmagórica imagem
Da ninfeta perfeita.

Entre sinos, acordar.
Entre lençóis, amarrotar-me-ei.

Já não sinto o amargo da nostalgia
Em minha boca.
O néctar dos lírios leva-me a contemplação
Do mundo das borboletas,
Vigorando a lua em uma noite
Residida por estrelas.

Pablo Silva

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Fagulha

A paixão deseja veemente sangue aguado e corações arruinados.
A saudade é só mágoa por ter sido feito tanto estrago,
E essa escravidão, essa dor não suplico mais!
Quando acreditei que tudo era um fato consumado
Veio a foice e jogou-te longe,
Longe do meu acalento.

No meu corpo não há nenhuma
Instância de paz.
Repentinamente meu cérebro
Entra em colapso, pelo efeito alucinante
De um “velho barreiro”.

A fagulha palpita nos meus olhos pardacentos,
E as pétalas aveludadas são levadas
Pela brisa e borboletas psicodélicas.

O céu se esconde debaixo do surrado tapete,
Feito o seu ávido amor estéril.
Que por circunstâncias hostis
Veraneia ao crepúsculo subjacente,
Esperando agradáveis beijos ao luar eqüidistante.

Pablo Silva

Cabresto Repugnante

Mentes vazias no vale das sombras
Perscrutam o som de gotas d’água
Numa gruta sub-húmida inabitada.

Idéias fixas percorrem pelos corredores dementes
Pernoitando a turva alienação
De pseudointelectuais.

Os fantasmas povoam
Os sorrisos falseados
Pela constância quotidiana
Do senso comum.

A auto-sensura tramita
Nos meus pensamentos,
E reflete na acorrentação
De palavras mesquinhas e supérfluas.

Oh mata-me depressa!
Meu corpo não resiste nesta democracia
Coberta por panos conspurcados,
Onde o único grito de iniqüidade
Que se ouve, é do ditador de devaneios.

Pablo Silva

Avidez Morosa

Sentado na rua desabitada
À espera do luar,
Perscruto as estrelas,
Escrevo poesias no céu,
E acondiciono-me nas feições
Desorientadas do meu subconsciente.

Assim, pelos caminhos desleais
Desvelo os dias singelos
Ao derramar de círios esmorecidos
Pelo tempo, e pelo tufão
Que perjura à fúria e o ódio doentio.

Minhas lágrimas não se contêm
Nos meus mareados olhos,
E cai feito chuva delinqüente.

As máscaras estão por aí,
Cobrindo semblantes emblemáticos,
Aluindo a cobiça e
Menosprezando o mar de rosas,
Onde se tornam incessível à contingência.

No cantarolar de prosas poéticas
Repousa o eu – lírico,
Criando no delírio os cenários surreais
Para decontaminação dessa progênie espúria.

Pablo Silva